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Picolé e alma: uma metáfora da transitoriedade humana
Quando
criança adorava os picolés.
O meu
recorde foram oito picolés em poucos minutos. Cada um de um sabor! Morango,
abacaxi, creme holandês, limão, chocolate, coco queimado e uva. Que delícia!
Os picolés
são mágicos. O vendedor de picolés é um grande vendedor de cores e sabores, quem sabe de verdades metafísicas.
Aquele
carrinho carregava dentro de si sonhos e paisagens. Cada gosto me levava para
um lugar diferente.
Enquanto
chupava o picolé, minha mente viajava pelo mundo todo. Meditava nos mistérios da vida
e do universo.
Cada pingo que caia fazia-me lembrar o quanto a vida é transitória.
Quando a gente chupa picolés não se pode perder tempo. Isso porque o
calor também gosta dos picolés.
Talvez
sejamos picolés! Cada um tem o seu sabor e a sua cor. Alguns são doces como o
creme holandês, outros azedos como tamarindo.
Ou quem
sabe somos todo o carrinho, lotado de picolés com todos os sabores e cores.
Mas todos
os picolés têm o seu tempo. Alguns derretem mais rapidamente, outros demoram mais.
O fato é
que todos nós derretemos no calor do tempo e da vida.
A cada dia
um pingo de vitalidade se perde no calor da temporalidade. Ficamos mais velhos
e mais líquidos. O tempo tem o poder de derreter a solidez de nossos egos picolés.
O sólido
ego no fluxo da existência vai transformando-se no líquido “self” da essência.
Todos os
dias nós derretemos um pouquinho mais no calor da vida. E a vida é quente, muito quente.
Alguns derretem
com sabedoria. Mas a maioria briga com os pingos coloridos que caem na terra.
Envelhecer
não é nada fácil. Aceitar a transitoriedade da vida e o fato de que somos “hebreus”, para muitos, é experiência de terror.
Hebreu
significa aquele que está de passagem. Somos passantes. Somos picolés.
A única
coisa que não derrete é o palito. Mas o que é o palito?
O palito é
a estrutura dos picolés. A coluna vertebral que dá suporte e base para o sólido
que tem como destino o líquido.
O palito
não derrete e pode até ser reaproveitado.
O que em
nós não derrete com o tempo?
O que em
nós permanece quando tudo é transitório?
Naqueles
tempos já sabia que os picolés eram metáforas humanas. Brincar com os picolés é arte iniciática. É penetrar nos mistérios da vida e da morte.
Cabe a nós
derreter com sabedoria e amor.
Porque cada
gota que cai na terra será um dia uma nuvem no céu.
Dr. Antônio Ricardo Nahas
Psicoterapeuta formado em Psicologia pela USP. Acupunturista. Curso sobre Psicologia
Budista em Dharamsala, Índia. Realizou estudos sobre Budismo Tibetano com
o atual Dalai-Lama no “Namgyal Monastery”, Dharamsala, Índia.
Curso sobre Psicologia Tibetana e Práticas Contemplativas pelo “Sakya
Tsechen Thubten Ling Centre” no “Asian Centre”, “University
of British Columbia” (U.B.C.), Vancouver, Canadá, com o lama Sakya
Trizin. Participação em palestras e workshops promovidos pela “Association
for Transpersonal Psychology” na U.B.C., Canadá, nas áreas
de Psicologia Transpessoal e Ecopsicologia. Participou de cursos e palestras sobre
Medicinas Chinesa, Tibetana e Ayurvédica. Formações em Práticas
Energéticas Chinesas, Biopsicologia e Hipnose. Conheceu várias práticas
terapêuticas corporais, psicológicas e espirituais quando visitou
o México, a Indonésia, a Austrália, a Índia, o Canadá,
a China, a Bolívia, Peru, Egito e Grécia. Curso de Aprimoramento
em Medicina Tradicional Chinesa na “Xiamen University”, China.
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