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Corrupção e os seis reinos do Budismo do Tibet
Muitos são os desafios que o homem enfrenta na sua jornada existencial. Muitas são as seduções e tentações do mundo material. Administrar a complexidade humana na sua subjetividade e ainda lidar com as coisas do mundo exterior exige uma competência psicológica que poucos possuem. Alguns homens facilmente se afogam quando escutam os cantos das sereias. O herói Ulisses, ao atravessar a ilha das sereias, quase morreu por causa daqueles sons afrodisíacos. Mas a pior morte é a da dignidade e a do espírito ético diante das seduções das sereias do poder e da ambição. Hoje em dia a corrupção avança e a desonestidade virou princípio normativo de vida. As sereias cantam e os fracos de alma pulam nos oceanos da vergonha e da desumanidade. A prostituição da alma está pervertendo cada vez mais os homens fracos de caráter e anêmicos de ética e moralidade. Essas almas estão severamente doentes. Sofrem de uma doença grave e de natureza bastante sociopática. A cura passa por um tratamento de quimioterapia ética e desenvolvimento de anticorpos morais e espirituais. É também interessante o fato de que políticos com um histórico de corrupção são reeleitos por uma massa que se preocupa mais com os resultados do “Big Brother” ou do futebol, do que com a devastação e apropriação exterior da floresta amazônica ou com o aquecimento global. Um povo que assiste a corrupção e nada faz. O arquétipo do colonizado ainda fecunda processos diversos da psique coletiva do nosso país. Um país rico que é governado por muitos miseráveis de caráter e de espírito ético. Como entender a loucura da corrupção que invade cada vez mais os três setores: judiciário, legislativo e executivo? Como o Budismo do Tibet veria isto ? Na cosmologia budista existem seis reinos ou estados de consciência: o reino dos humanos (onde predomina o medo), dos “asuras” (onde predomina a inveja), dos infernos (onde predomina a raiva), dos ignorantes ou animais(onde predomina a ignorância), dos espíritos famintos (onde a cobiça é predominante) e o mundo dos deuses (poder e luxúria). Cada mundo representa determinados estados psicológicos e certos processos mentais e comportamentais. Poderíamos pensar que os corruptos vivem em dois mundos ao mesmo tempo: no mundo dos espíritos famintos onde predominam a ambição, a insatisfação e a insaciabilidade e no mundo dos deuses ou “devas” onde predominam a luxúria, a vaidade e a pseudo felicidade sensual. Os que permanecem alienados e ignorantes pertencem ao mundo simbolicamente associado ao reino animal - mundo dos seres condicionáveis. Neste mundo não há “insight” nem criatividade. Não há renovação apenas a repetição do estabelecido. Os condicionamentos e as alienações fazem parte deste estado de consciência que é passivo e submisso. Esse reino, infelizmente, é muito visitado por aqueles que perdem o seu tempo diante das telas da alienação assistindo programas que programam a mente. Podemos pensar que a corrupção é um sintoma de duas doenças muito graves. A doença do caráter sociopata e a doença do desejo cujo sintoma maior é a metástase da ambição e da ganância. Os corruptos são seres humanos terminais num processo de adoecimento muito parecido com o tumor. Terminais porque se decreta a morte daquilo que torna o humano demasiadamente humano – o amor. A morte do amor é também a morte do humano. A corrupção transforma o homem corrupto num inseto. Kafka no livro "A Metamorforse" retrata a possibilidade desta transformação. Mas na sua obra é o dia a dia quem faz isto. Na visão Budista, nos reinos dos “devas” e dos “espíritos famintos” existem duas infelicidades: a da não realização do desejo e a da realização do desejo. Também ficamos tristes quando realizamos um desejo - por incrível que pareça! A morte momentânea de um desejo cria um vácuo cheio de energia que potencializa outros desejos mais. Quando um desejo é realizado aparece outro e assim por diante. A cadeia não tem fim. Esse processo é conhecido pelos budistas como "samsara". Muitas vezes, uma depressão ou um tumor de próstata (símbolo do poder fálico masculino) afirma a incompetência de uma vida centrada na ilusão e num poder perverso. Muitos políticos ou homens que buscam o poder somatizam um câncer na próstata. É claro que cada caso é um caso e muitas são as variáveis envolvidas (alimentação, genética etc...). Mas voltando para o mito de Ulisses, nosso herói só foi salvo na segunda travessia (na volta) porque pediu para ser amarrado no mastro da dignidade. Esse mastro fortalece a alma. O reino humano é o reino da dignidade! O desafio de todos nós nesta travessia existencial é o de chegar ao reino do humano. Um estado de consciência centrado no amor e não no poder. Mas para isso devemos substituir o canto sedutor do poder pelo canto gregoriano do amor. Mas as fábricas de produção de necessidades, alienações e falsas ideologias continuam funcionando a todo vapor com a ajuda da energia elétrica de um sistema perverso e demoníaco. Penso que Ulisses está dentro de todos nós, assim como todos os reinos da cosmologia budista. Navegamos por ilhas cheias de fantasias e de sereias das mais perigosas. Na ida pode acontecer o mergulho mas na volta, existe a oportunidade de um retorno lúcido e consciente. O destino do homem é o humano. A passagem para o reino humano ainda não foi feita. É o próximo passo do "Projeto Atman". Para concluir, penso que o mastro do navio do eu são a honestidade, o caráter e a dignidade. As águas, a vida. As ilhas de "Caras" as seduções e ílusões. O continente perdido do amor, o nosso único destino.
Dr. Antônio Ricardo Nahas
Psicoterapeuta formado em Psicologia pela USP. Acupunturista. Curso sobre Psicologia
Budista em Dharamsala, Índia. Realizou estudos sobre Budismo Tibetano com
o atual Dalai-Lama no “Namgyal Monastery”, Dharamsala, Índia.
Curso sobre Psicologia Tibetana e Práticas Contemplativas pelo “Sakya
Tsechen Thubten Ling Centre” no “Asian Centre”, “University
of British Columbia” (U.B.C.), Vancouver, Canadá, com o lama Sakya
Trizin. Participação em palestras e workshops promovidos pela “Association
for Transpersonal Psychology” na U.B.C., Canadá, nas áreas
de Psicologia Transpessoal e Ecopsicologia. Participou de cursos e palestras sobre
Medicinas Chinesa, Tibetana e Ayurvédica. Formações em Práticas
Energéticas Chinesas, Biopsicologia e Hipnose. Conheceu várias práticas
terapêuticas corporais, psicológicas e espirituais quando visitou
o México, a Indonésia, a Austrália, a Índia, o Canadá,
a China, a Bolívia, Peru, Egito e Grécia. Curso de Aprimoramento
em Medicina Tradicional Chinesa na “Xiamen University”, China.
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