Cana, Caná e Canaã: todos em cana?

Cana, Caná e Canaã

 

            O primeiro milagre que a manifestação de Sananda, filho de Micah, realizou em nosso planeta foi a transformação da água em vinho em um casamento na cidade de Caná.

            Esse primeiro milagre foi uma verdadeira operação alquímica realizada por Jesus.

            As moléculas de água formadas por átomos de hidrogênio e oxigênio ganharam uma nova configuração química no grande opus do alquimista Jesus.

            A água apolínea ganhou moléculas dionísicas capazes do êxtase e da embriaguez.

            Em Caná, a água ganha uma dimensão alcoólica regada pelo sabor da uva.

            Algo semelhante acontece no momento atual, nas bodas dos agronegócios de cana.

            Nas terras adâmicas (e adam significa terra vermelha ou barro vermelho) a monocultura da cana ganha exclusividade e poder.

            A monocultura do ego também é praticada nas terras férteis da alma adâmica. Não exploramos a nossa multidimensionalidade e estamos presos a uma monocultura que empobrece o rico solo da nossa subjetividade.

             Nas bodas da monocultura da cana, o vinho é substituído pelo açúcar e pelo álcool, produtos indispensáveis na sociedade de consumo.

            Hoje os grandes alquimistas são os usineiros que conseguem transformar cana em combustível (álcool) para os carros e combustível para o corpo (açúcar).

            Todos nós sabemos que essa alquimia é necessária. Mas tudo tem a sua medida e o seu preço.

            A biodiversidade perde com a monocultura da cana e o humano também. A superexploração laboral que os trabalhadores enfrentam é desumana e perversa.

            Muitos problemas de infra-estruturas urbana e rural estão sendo criados pela economia do agronegócio.

            A terra prometida de Canaã está se transformando na terra comprometida da cana nas bodas que não é de Caná.

            É triste pensar que isso é um reflexo de um empobrecimento interior conseqüência da perda do espírito ecológico e sinérgico do mundo neoliberal.

            A monocultura da alma também gera empobrecimentos variados.

            A lógica do neoliberalismo transforma todos nós em cortadores de cana e praticantes da monocultura do materialismo.

            O milagre que acontece nas bodas de cana, não é o da transubstanciação da água em vinho.

            A alquimia é outra.

            Muitos estão projetando na cana a terra prometida. Acreditando que da cana nascerá a Canaã, metáfora da prosperidade e da felicidade na metamorfose de Caná.

            Mas Canaã não se tornou o paraíso tão sonhado.

            Pelo contrário, virou deserto.

            Todos nós entraremos em cana ou pelo cano se não operarmos uma outra alquimia: a transformação da monocultura da ambição na multicultura do respeito à vida.

            O vinho está acabando. Vamos esperar por Jesus?

             

Dr. Antônio Ricardo Nahas

Psicoterapeuta formado em Psicologia pela USP. Acupunturista. Curso sobre Psicologia Budista em Dharamsala, Índia. Realizou estudos sobre Budismo Tibetano com o atual Dalai-Lama no “Namgyal Monastery”, Dharamsala, Índia. Curso sobre Psicologia Tibetana e Práticas Contemplativas pelo “Sakya Tsechen Thubten Ling Centre” no “Asian Centre”, “University of British Columbia” (U.B.C.), Vancouver, Canadá, com o lama Sakya Trizin. Participação em palestras e workshops promovidos pela “Association for Transpersonal Psychology” na U.B.C., Canadá, nas áreas de Psicologia Transpessoal e Ecopsicologia. Participou de cursos e palestras sobre Medicinas Chinesa, Tibetana e Ayurvédica. Formações em Práticas Energéticas Chinesas, Biopsicologia e Hipnose. Conheceu várias práticas terapêuticas corporais, psicológicas e espirituais quando visitou o México, a Indonésia, a Austrália, a Índia, o Canadá, a China, a Bolívia, Peru, Egito e Grécia. Curso de Aprimoramento em Medicina Tradicional Chinesa na “Xiamen University”, China.

 

 

 

 

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