Manhattan ou Mahâtman?

 

Como de costume, eu gosto de filosofar brincando com as palavras.

Por que não fazer filosofia de maneira lúdica e prazerosa?

Quando brincamos podemos introduzir o lúdico na dimensão do trágico, levando sentido e alegria aonde tem sofrimento e dor.

Caminhamos entre o mágico e o trágico e na bissetriz do triângulo existencial encontramos a humanidade.

Entre os extremos o elemento humano pulsa e vibra nas batidas de um coração que ora bate mais rápido e ora mais tranqüilo.

Entre Manhattan a Mahâtman encontramos algo conhecido como Adam.

Adão é o homem terreno que caminha buscando um despertar interior. Um homem que busca a libertação das ilusões e dos instintos inferiores.

Adão é o ponto médio situado entre dois mundos.

Num extremo a busca do poder carnal e da aquisição de bens materiais efêmeros, no outro a busca do poder espiritual e dos bens espirituais eternos.

No mundo encontramos muitos homens “manhátticos” que buscam nas seduções do mundo um sentido para a vida. Poucos são aqueles homens “mahâtmas” que se tornaram adeptos de uma ordem mais elevada.

O homem carnal e profano busca nas entranhas da matéria o “nirvana” e jamais o encontra.

O homem mahâtmico sabe que o nirvana é um estado cósmico espiritual que só pode ser alcançado na substancialidade espiritual e não material.

Manhattan não apenas é o nome de um dos sessenta e dois condados do estado de Nova Iorque. É também o nome do projeto atômico que deu origem a primeira bomba nuclear americana.

O projeto Manhattan produziu bomba. Mas o que poderia produzir o projeto Mahâtman?

Quem sabe Budas!

Entre bombas e Budas acontece a saga humana. Um caminhar muitas vezes trágico e algumas vezes mágico.

A palavra sânscrita “mahâtman” significa grande alma. O mâhatman é um adepto que segue a Ordem Cósmica e não aquela ordem desordenada centrada no capital e poder.

Os homens manhátticos seguem a nova ordem mundial. Os homens mahâtmicos seguem o “Dharma” universal.

Hoje, na planície de Gaza, o projeto manhattan está vencendo o Projeto Mahâtman.

As religiões do planeta não salvaram a humanidade da sua barbárie. O que poderá nos salvar?

Alguns dizem que a transformação interior.

A passagem do homem manháttico para o homem Mahâtmico só acontecerá quando o ódio for substituído pelo amor.

Mas o que é o amor?

Segundo Kierkegaard, o amor é a não volatização do ser do outro e sim, a afirmação do outro ou da distintividade do outro.

Para o homem manháttico, três horas de trégua, sem o lançamento de bombas e mísseis em crianças inocentes é um ato de solidariedade e benevolência! Três horas onde ele afirma a existência do outro para depois, numa atitude sádica e perversa, destruí-lo em pedaços.

Esse pobre homem não sabe que está matando a si mesmo, porque só nos afirmamos na presença da alteridade e só nos encontramos quando há a saída de si e o encontro com o outro num processo dialógico.

A história humana será sempre trágica e diabólica enquanto o homem não se tornar mágico e dialógico!

Porque é mágico o diálogo. Nele é possível o encontro, a alquimia e a transformação.

O filósofo Paul Ricoeur, na sua filosofia da alteridade, nos coloca o quanto é importante dar presença ao outro.

O sujeito jamais será substancial em si mesmo e Buda já sabia disto. Ninguém se basta! Precisamos do outro e das diferenças.

A ausência de uma presença nos causa um estranhamento. Porque o sujeito é atravessado e constituído pela alteridade.

A capacidade de perdoar do homem mahâtmico é uma forma singular de dar vida e presença ao outro, seja árabe, judeu, católico ou protestante.

Já o homem manháttico não perdoa porque não é capaz de dar presença a si mesmo no seu próprio estranhamento. Ele dá presença aos objetos do mundo e não aos sujeitos. E por isto se torna também objeto em uma metamorfose do ser em coisa.

O que acontece no oriente médio também acontece no nosso dia a dia.

Também experimentamos em nossa intimidade, a briga dos árabes com os judeus num grande “mahabharata” interior como já diziam os hindus.

E projetamos isto nas nossas relações com o mundo exterior.

Mas a grande batalha poderá ter um fim quando nós aprendermos a arte do abandono momentâneo de si, para dar escuta ao mistério do outro.

 

 

Dr. Antônio Ricardo Nahas

Psicoterapeuta formado em Psicologia pela USP. Acupunturista. Curso sobre Psicologia Budista em Dharamsala, Índia. Realizou estudos sobre Budismo Tibetano com o atual Dalai-Lama no “Namgyal Monastery”, Dharamsala, Índia. Curso sobre Psicologia Tibetana e Práticas Contemplativas pelo “Sakya Tsechen Thubten Ling Centre” no “Asian Centre”, “University of British Columbia” (U.B.C.), Vancouver, Canadá, com o lama Sakya Trizin. Participação em palestras e workshops promovidos pela “Association for Transpersonal Psychology” na U.B.C., Canadá, nas áreas de Psicologia Transpessoal e Ecopsicologia. Participou de cursos e palestras sobre Medicinas Chinesa, Tibetana e Ayurvédica. Formações em Práticas Energéticas Chinesas, Biopsicologia e Hipnose. Conheceu várias práticas terapêuticas corporais, psicológicas e espirituais quando visitou o México, a Indonésia, a Austrália, a Índia, o Canadá, a China, a Bolívia, Peru, Egito e Grécia. Curso de Aprimoramento em Medicina Tradicional Chinesa na “Xiamen University”, China.

 

 

 

 

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