Antropogênese maia: do barro à pipoca?

Os mitos são riquezas inestimáveis, pois tratam dos arquétipos mais profundos da psique humana e do cosmos.

 

Com eles podemos entender a anatomia da alma e a psicologia do universo.

 

Recentemente me deparei com um mito muito interessante. Uma estória contida no “Popol Vuh”, livro sagrado dos maias que na língua quiché significa livro da comunidade.

 

Essa obra foi escrita sobre a pele de um veado e trata de assuntos muito interessantes.

 

A cosmogênese e a antropogênese são temas presentes nesta obra tão rica em imagens e metáforas.

 

Na antropogênese maia, assim como na teologia cristã, o homem foi criado a partir do barro. A matéria prima da humanidade é o húmus ou barro.

 

A palavra “adamah” em hebraico quer dizer solo vermelho. Portanto, somos todos adâmicos. Nossas partículas de matéria são feitas de “quarks” adâmicos decaídos no solo vermelho.

 

Matéria cheia de “Eva” ou “Hawah” que na língua hebraica significa vivente ou viver.

 

Na antropologia das mais variadas culturas o homem tem nas suas entranhas estranhas partículas de barro cheias de vida ou Evas!

 

Mas na mitologia dos maias a primeira criação do barro não teve sucesso. Então os deuses resolveram criar uma segunda geração feita com madeira.

 

Em vários mitos a madeira ocupa um papel de destaque. Por exemplo, no mito egípcio uma árvore aparece como o útero da futura ressurreição de Osíris após a sua morte no confronto com o seu irmão Seth.

 

Mas o homem de madeira também não vingou! Então os deuses decidiram uma última tentativa. Quem sabe o milho não poderia ser o “estofo” da substância humana.

 

Na antropogênese maia o homem percorre três fases: a do barro, a da madeira e a do milho.

 

Parece-me que a madeira é um elemento intermediário. Um estado de transição.

 

Na estória do pinóquio encontramos o mesmo arquétipo. Um boneco de madeira que ganhou vida, mas uma vida sem sabedoria e consciência.

 

A sua transformação em menino só acontece quando ganha responsabilidade e consciência ética.

 

O ponto alfa da antropogênese maia é o estado adâmico ou estado barroso.

 

Depois o homem percorre a fase pinóquio/madeira na busca da autoconsciência e posterior sabedoria, para depois humanizar-se no milho.

 

O milho representa o estado consciente ou quem sabe aquilo que Teilhard Chardin chamaria de noogênese ou gênese de um estado mental lúcido e consciente .

 

O encontro com a lucidez interior que humaniza a madeira e transforma o inconsciente pinóquio pré-humano em um ser conscientemente humano.

 

Tudo indica que ainda vivemos em um estado de pré-humanidade como o pinóquio da estória italiana. Não chegamos ainda ao milho. Somos todos pinóquios mentirosos.

 

Os nossos narizes crescem a cada dia  em uma ereção fálica perversa e perigosa.

 

O milho é símbolo espiritual na cultura maia e, portanto, a etapa final do processo criativo divino.

 

Mas acrescentaria na minha visão evolutiva uma quarta etapa na antropologia da gênese humana: a etapa da pipoca ou a do milho cozido.

 

A possibilidade da explosão do milho consciente no “Self” florido da pipoca superconsciente. Ou ainda o cozimento do milho na água salgada.

 

Nós sabemos que o sal tem um significado profundo na alquimia. O milho precisa do sal assim como a pipoca também.

 

Uma explosão espiritual realizada no batismo do fogo sagrado e ungido com óleo quente na panela da existência. E depois o sal para dar um sabor ainda mais especial.

 

Chardin chamaria todo esse processo de Cristogênese. O ponto ômega do processo evolutivo.

 

A cristificação da matéria que tem as suas origens no barro fértil ou vermelho, passando pela dura madeira e pelo duro milho até chegar à delicadeza da pipoca ou suavidade do milho cozido.

 

Tudo indica que não estamos aqui para sermos cristãos e sim Cristos!

 

O estado de pipoca talvez seja o ponto ômega da antropogênese humana. Mas para o milho virar pipoca, nós precisaremos mergulhar no quente óleo do despertar sob o fogo da consciência. E depois receber o sal da sabedoria.

 

Percebe-se que o caminhar humano é alquímico. Passamos por  fases e por processos até chegarmos ao milho macio, cozido no fogo sagrado da consciência. Ou na flor de pipoca após o estado de dureza interior.

 

Como dizia Heidegger: “Ser é explodir”.

 

Se não houver em breve um “Big –Bang” ontológico a explosão poderá ser outra.

 

 

 

 

 

Dr. Antônio Ricardo Nahas

Psicoterapeuta formado em Psicologia pela USP. Acupunturista. Curso sobre Psicologia Budista em Dharamsala, Índia. Realizou estudos sobre Budismo Tibetano com o atual Dalai-Lama no “Namgyal Monastery”, Dharamsala, Índia. Curso sobre Psicologia Tibetana e Práticas Contemplativas pelo “Sakya Tsechen Thubten Ling Centre” no “Asian Centre”, “University of British Columbia” (U.B.C.), Vancouver, Canadá, com o lama Sakya Trizin. Participação em palestras e workshops promovidos pela “Association for Transpersonal Psychology” na U.B.C., Canadá, nas áreas de Psicologia Transpessoal e Ecopsicologia. Participou de cursos e palestras sobre Medicinas Chinesa, Tibetana e Ayurvédica. Formações em Práticas Energéticas Chinesas, Biopsicologia e Hipnose. Conheceu várias práticas terapêuticas corporais, psicológicas e espirituais quando visitou o México, a Indonésia, a Austrália, a Índia, o Canadá, a China, a Bolívia, Peru, Egito e Grécia. Curso de Aprimoramento em Medicina Tradicional Chinesa na “Xiamen University”, China.

 

 

 

 

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