|
Mitologia e Musicoterapia
Recentemente lendo Campbell, um dos maiores estudiosos de mitologia do mundo, me deparei com algo que me chamou muito a atenção. Quando perguntaram para Campbell o que era mitologia ele respondeu: “A mitologia é música. É a música da imaginação, inspirada nas energias do corpo.” Também conta Campbell que um mestre zen parou diante de seus discípulos para proferir um sermão, quando um pássaro cantou. O mestre então disse aos seus discípulos que o sermão já havia sido proferido. O que podemos perceber nesse conto é a possibilidade do canto ser um canal de expressão de conteúdos simbólicos e arquetípicos. Essa leitura me fez levantar muitas questões sobre as possíveis relações existentes entre o universo musical e os mitos. A partir dessas reflexões não foi difícil para mim entender que a música e a mitologia estão muito ligadas, fazendo ambas parte de um rico e complexo universo de imagens, símbolos e arquétipos que podem também ser sonoros. Jean-Yves Leloup no livro “Terapeutas do Deserto” faz uma importante reflexão sobre a relação que existe entre a dimensão espiritual da natureza humana – tão explorada pelos mitos – e a música. O autor cita que Dückheim via na teoria psicanalítica de Freud uma recusa em relação à dimensão espiritual da sexualidade humana. Também cita o curioso fato de que Freud negava a música, não gostava de música. Sua recusa pela música também era a recusa pela dimensão feminina (espiritual) da sexualidade humana. Segundo Leloup “o amor pela música pode introduzir uma música no interior de nossas relações” e esse é o tema principal da maioria dos mitos das diferentes culturas do planeta. Os mitos falam da música da alma e da melodia do encontro. Mas o que são os mitos? Os mitos são metáforas das potencialidades espirituais do ser humano e também pistas para estas potencialidades. Eles nos falam daquilo que podemos conhecer e experimentar interiormente. Os mitos, segundo Campbell, nos ensinam o caminho para o mundo interior, habitado por símbolos, imagens e energias arquetípicas variadas. “São a abertura secreta através da qual as energias inesgotáveis do cosmos são lançadas nas manifestações culturais humanas”. É importante ressaltar que os mitos não são lendas ou falsidades, mas modelos através dos quais nós organizamos nossas percepções, sentimentos, pensamentos e atitudes. Segundo Henry Murray, eles servem para inspirar, gerar convicções e orientar nossas ações e relacionamentos. O homem moderno está perdido porque perdeu sua conexão com os antigos mitos e símbolos que orientavam sua vida. Por isto, nos últimos tempos, vem ressurgindo o interesse pela mitologia como caminho para uma vida interior mais rica. Segundo Rollo May, precisamos nos libertar urgentemente dos mitos modernos que apoiam somente o desenvolvimento material e o controle da natureza e resgatar aqueles mitos mais clássicos que tinham como propósito a harmonização e a participação com os ciclos naturais. Dentro do contexto mítico também encontramos os rituais que são a materialização dos mitos no plano concreto e físico. Os rituais são atos simbólicos que celebram, reverenciam ou comemoram um evento. São ações simbólicas que fortalecem a harmonia com os ritmos da natureza, estabelecem tarefas pessoais ou coletivas e nos ligam aos aspectos cósmicos considerados sagrados e divinos. Um ritual pode ser realizado regularmente, ocasionalmente ou somente uma única vez, bem como de uma forma particular ou grupal. Segundo Feinstein e Krippner, os rituais podem ser conduzidos por uma família, por um pequeno grupo ou por uma comunidade inteira, acompanhados ou não de palavras, de música ou técnicas de alteração da consciência, como por exemplo, sons mântricos, danças rodopiantes ou o uso de ervas naturais. A música, dentro do contexto ritualístico, abre os canais de comunicação com os níveis mais profundos da nossa psique, estabelecendo pontes entre o nosso eu consciente e o nosso eu inconsciente nas suas diferentes camadas. Os rituais podem utilizar a música como instrumento de contato com o simbolismo interno que a psique gera naturalmente de forma ininterrupta. Podemos contactar nossos arquétipos mais profundos quando cantamos, dançamos ou ouvimos os sons de diferentes instrumentos musicais e, assim, tocar a música de nossa alma. Portanto, a função primordial da mitologia e do rito é a de oferecer símbolos que fazem progredir o espírito humano. A música tem uma importância central nesse processo de elevação humana, porque ela facilita essa abertura para os níveis não racionais da natureza humana, onde estão guardados os símbolos e as imagens arquetípicas, fontes de criatividade e sabedoria. Pensando na música como um dos instrumentos que podem abrir as portas do inconsciente não só pessoal mas também coletivo, identificamos o seu potencial terapêutico e sua utilidade no tratamento de muitos problemas humanos físicos, mentais e, porque não, espirituais. A Musicoterapia, penso eu, como ciência que utiliza os sons e a música como recursos terapêuticos, tem muito a ganhar ao estabelecer um diálogo com o pensamento mítico. Acredito que em cada sessão de Musicoterapia, cria-se um espaço sagrado, também mítico, onde os principais acordes são aqueles expressos pelas almas do terapeuta e do cliente que juntos procuram a tonalidade, a intensidade e a melodia da realização interior. Outro ponto interessante, que precisa ser explorado pelos musicoterapeutas e psicólogos, nesse diálogo entre a música e os mitos, é a possibilidade de existirem os arquétipos de natureza sonora. Se existem imagens simbólicas de natureza arquétipica que estruturam e organizam o funcionamento da psique, será que também não existem sons estruturantes de natureza arquetípica? Essa é uma questão a ser pesquisada e estudada, mas penso, na minha reflexão pessoal, que na nossa mente existe uma infinidade de arquétipos também sonoros que organizam e estruturam nossa vida mental. Acredito que os sons criados e experimentados pelos nossos ancestrais, nas cavernas ou nas cerimonias sagradas, ainda ecoam dentro dos nossos corações. Tenho percebido nas minhas pesquisas e viagens, que existem sons que são comuns às diferentes tradições ou culturas. Na Índia e no Tibet encontramos sons mântricos que os orientais acreditam influenciar as nossas emoções, pensamentos e atitudes. Nas tradições indígenas também encontramos sons de natureza mântrica, que são utilizados nos rituais de cura e nas cerimônias sagradas. Esses sons possuem algumas características comuns: são repetitivos e entoados de modo muito semelhante. O mantra “Om”, por exemplo, é encontrado no budismo tibetano, nas tradições indígenas de diferentes países e em diferentes fenômenos produzidos pela natureza. Recentemente os físicos descobriram que existe um “ruído de fundo” no universo produzido pelo “Big Bang”, ou grande explosão, que deu origen a tudo o que existe atualmente. Esse ruído se parece muito com o mantra “Om” que na literatura hindu é a origem de tudo o que existe no universo. É curioso também o fato que a maioria dos mitos que tratam da criação do universo, falam de um som primordial que deu origem a tudo o que existe. O som nos diferentes mitos é tratado como a fonte de todas as manifestações. Conhecendo o som, conhecemos os mistérios de todo o universo. Podemos dar como exemplo o “verbo” no livro do Gênesis que pode ser interpretado como o som que tudo criou, tornando-se carne. No Rig Veda, o mais antigo dos livros sagrados indianos, também encontramos uma outra relação muito importante: a relação entre som e consciência. Temas como a criação do cosmos e a evolução da consciência estão muito presentes nos mitos. Eles reconhecem a importância da música e dos sons na jornada evolutiva humana. Sendo assim, encontramos mais um ponto de contato entre o pensamento mítico e o universo musical. Muitas são as indagações. Precisamos de humildade e abertura para responder algumas delas. Penso ser importante uma visão interdisciplinar, que possibilite o diálogo entre as diferentes visões e campos do saber. O diálogo entre a musicoterapia e a mitologia é importante. Tanto os mitos quanto os sons falam da alma, para a alma e pela alma. Não podemos cair no mesmo erro que Freud caiu. Ele ignorou as profundezas arquetípicas da natureza humana e também não abriu seu coração para a dimensão feminina da alma que, segundo alguns, é pura melodia. A mitologia, segundo Campbell, é música. Os mitos tanto quanto os sons penetram nas dimensões profundas da alma humana e do cosmos. Naquelas dimensões onde a lógica da razão não pode chegar. Onde a lógica científica não pode tocar. Onde apenas a lógica do coração tem permissão para entrar.
Dr. Antônio Ricardo Nahas
Dr. Antônio Ricardo Nahas
Psicoterapeuta formado em Psicologia pela USP. Acupunturista. Curso sobre Psicologia
Budista em Dharamsala, Índia. Realizou estudos sobre Budismo Tibetano com
o atual Dalai-Lama no “Namgyal Monastery”, Dharamsala, Índia.
Curso sobre Psicologia Tibetana e Práticas Contemplativas pelo “Sakya
Tsechen Thubten Ling Centre” no “Asian Centre”, “University
of British Columbia” (U.B.C.), Vancouver, Canadá, com o lama Sakya
Trizin. Participação em palestras e workshops promovidos pela “Association
for Transpersonal Psychology” na U.B.C., Canadá, nas áreas
de Psicologia Transpessoal e Ecopsicologia. Participou de cursos e palestras sobre
Medicinas Chinesa, Tibetana e Ayurvédica. Formações em Práticas
Energéticas Chinesas, Biopsicologia e Hipnose. Conheceu várias práticas
terapêuticas corporais, psicológicas e espirituais quando visitou
o México, a Indonésia, a Austrália, a Índia, o Canadá,
a China, a Bolívia, Peru, Egito e Grécia. Curso de Aprimoramento
em Medicina Tradicional Chinesa na “Xiamen University”, China.
|